O Centro de Artes e Criatividade (CAC) acolheu, no passado dia 28 de março, pelas 14h30, a inauguração da exposição “A Memória dos Pássaros Que Não Voam”, uma mostra que propõe uma reflexão profunda sobre o território, a memória e a condição humana. A exposição estará patente ao público até ao dia 21 de junho de 2026.
Integrada no projeto artístico REVELAR Torres Vedras, esta exposição resulta de um processo de investigação iniciado em 2023, que teve como objetivo dar visibilidade a dimensões menos evidentes do território, cruzando património natural, cultural e humano através da arte contemporânea. O projeto parte da vontade de revelar “pequenos segredos”, propondo um olhar diferenciado sobre o concelho.
Na sessão de inauguração, o diretor executivo do CAC, Rui Brás, destacou o carácter estruturante da iniciativa, sublinhando a sua ligação ao território e à comunidade: “Queríamos que esta criação artística tivesse uma relação com o nosso espaço, com Torres Vedras”. Salientou ainda o processo prolongado de trabalho, marcado pela colaboração entre artistas, curadoria e comunidade.

Também o curador Jorge Reis reforçou a dimensão conceptual e reflexiva da mostra, considerando que “sonhar é um ato de coragem”, e que esta exposição convida precisamente a esse exercício. Para o responsável, os “pássaros que não voam” assumem-se como uma metáfora da condição humana, representando todos aqueles que procuram novas formas de imaginar e compreender o mundo.
A exposição parte de uma premissa poética: o voo enquanto símbolo de liberdade e a memória enquanto força que nos ancora.
O percurso expositivo organiza-se em três eixos fundamentais. Em “A Matéria e a Origem”, Evgenia Emets apresenta o projeto “Fossilidades”, que parte de um tronco fóssil com cerca de 160 milhões de anos para questionar a relação entre passado e futuro das florestas. Em “A Perceção e o Efémero”, João Henriques explora a paisagem como construção cultural, criando imagens que oscilam entre o documento e a ilusão. Já em “O Humano e o Silêncio”, Márcio Carvalho constrói um testemunho íntimo a partir de memórias de mulheres ligadas à Guerra do Ultramar, abordando temas como ausência, perda e resistência.
Recusando o modelo expositivo tradicional do “cubo branco”, a curadoria optou por integrar as obras em espaços não convencionais do edifício do CAC, criando uma experiência diferente e única onde arquitetura e arte dialogam de forma orgânica. As peças distribuem-se pelo espaço, convidando o visitante a um percurso de descoberta contínua.
Paralelamente, o projeto estende-se ao meio digital através de uma plataforma que documenta o processo de investigação artística no território, reforçando a dimensão participativa e georreferenciada da iniciativa.
“A Memória dos Pássaros Que Não Voam” afirma-se, assim, como o culminar de um percurso artístico que começou com a vontade de “andar por caminhos menos caminhados” e de “mostrar imagens que ainda não foram vistas”, convidando o público a escutar o território para além do visível.
O projeto REVELAR é promovido pela Câmara Municipal de Torres Vedras, através do Centro de Artes e Criatividade, com produção da associação cultural EMERGE, e cofinanciado pela DGArtes – Direção-Geral das Artes e pelo Ministério da Cultura.

